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Especialista destaca impactos das redes sociais na banalização de diagnósticos de transtornos psicológicos e de desenvolvimento

Cuidar da saúde mental deixou de ser um luxo e passou a ser uma necessidade. Em 2024, quase meio milhão de brasileiros se afastaram do trabalho por questões emocionais — um aumento de 68% em relação ao ano anterior, segundo o Ministério da Previdência.

Cuidar da saúde mental deixou de ser um luxo ou algo pontual e se tornou uma necessidade contínua. Em 2024, quase meio milhão de brasileiros se afastaram do trabalho por questões relacionadas à saúde mental. Com um aumento de 68% em comparação ao ano anterior, de acordo com dados do Ministério da Previdência Social. No total, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) recebeu 3,5 milhões de pedidos de licença médica, sendo mais de 10% motivados por transtornos mentais. Os números revelam não apenas a dimensão do problema, mas também a urgência de abordá-lo com responsabilidade, evitando tanto o silêncio quanto a banalização. 

Banalizar diagnósticos pode gerar efeitos contrários, reforçando preconceitos, ampliando discriminações e até dificultando a adesão aos tratamentos.“Quando um transtorno é banalizado, perde-se a dimensão do seu impacto real na vida das pessoas e na sociedade, o que pode prejudicar a busca por tratamento adequado”, explica a professora de Psicologia da UniRitter, Susani Oliveira. 

As redes sociais são um novo consultório?

Na era das redes sociais, falar sobre psicologia está cada vez mais comum e essa ampliação das discussões sobre saúde mental é positiva, mas existe a necessidade de responsabilidade na forma como esses temas são comunicados. “Hoje já não é mais pejorativo dizer que faz terapia ou que possui um transtorno psicológico. Essa mudança é um ganho. Porém, quando a informação circula sem responsabilidade, abre espaço para distorções. Tivemos, por exemplo, uma música que tratava do Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), uma condição caracterizada por instabilidade emocional intensa, dificuldade nos relacionamentos, mudanças bruscas de humor, medo de abandono e comportamentos impulsivos. Apesar de ser uma obra artística, a forma como foi escrita poderia gerar interpretações equivocadas sobre quem convive com esse diagnóstico”, explica. 

Muitas pessoas passaram a se identificar com sintomas apresentados em vídeos curtos, o que tem levado a um aumento do autodiagnóstico.“As redes sociais podem funcionar como um alerta, incentivando alguém a procurar ajuda. O problema é quando a pessoa se rotula a partir de um conteúdo superficial. Ser muito organizado, por exemplo, não significa ter Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), quando uma pessoa sofre com pensamentos, imagens ou impulsos repetitivos e indesejados que a levam a realizar rituais repetitivos (compulsões). O que diferencia uma característica pessoal de um transtorno clínico é a intensidade, a duração e a frequência com que os sintomas aparecem”, destaca a docente. 

Quando é válido compartilhar experiências? 

Quando o relato vem acompanhado de orientações médicas ou de experiências pessoais compartilhadas com responsabilidade, ele pode ter um efeito positivo. “É preciso estar ciente das consequências que acompanham as postagens. Quando o discurso é sensacionalista ou pejorativo, o impacto pode ser ainda mais estigmatizante, levando até mesmo pessoas diagnosticadas a resistirem ao tratamento”, ressalta Susani. Ela também destaca que abordar esses temas de forma consciente pode promover acolhimento e reduzir o estigma. “Quando alguém que admiramos compartilha seu diagnóstico, isso pode servir de inspiração e mostrar que é possível conviver com o transtorno e alcançar conquistas.”

Informação com responsabilidade 

Informação com responsabilidade nas redes implica um conjunto de práticas éticas e legais, que envolvem tanto o uso consciente por parte dos utilizadores quanto à maior responsabilização das plataformas digitais, que foram redefinidas na última semana pelo STF para removerem conteúdos ilícitos e agirem proativamente contra a desinformação e o discurso de ódio. Nas redes sociais existe um debate grande sobre saúde mental que acaba se tornando um passo fundamental para uma sociedade mais saudável. Mas, como lembra a professora, informação mal conduzida pode ser tão nociva, ou mais, do que a ausência de informação. 

O risco do autodiagnóstico 

Nem tudo o que se vê na internet é real e o que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra. Uma dieta, por exemplo, não tem o mesmo efeito em metabolismos diferentes. Isso significa que, se uma influenciadora emagreceu seguindo determinado método, não há garantia de que o mesmo acontecerá com você, mesmo que siga todas as orientações à risca. O mesmo vale para o uso de medicamentos. 

Um levantamento realizado pelo Datafolha em 2024 revelou que 9 em cada 10 brasileiros tomam medicamentos por conta própria. Para a especialista, esse comportamento pode trazer sérias consequências. “O impacto pode surgir de várias formas: automedicação, adoção de tratamentos inadequados ou até a piora do quadro clínico. Além disso, a pessoa pode começar a construir sua identidade com base em um rótulo equivocado, o que afeta diretamente sua autoestima e suas relações”, explica. 

Nesse cenário, a atuação de psicólogos e psiquiatras nas redes sociais, produzindo conteúdo de qualidade e cientificamente embasado, torna-se ainda mais necessária. “É preciso equilíbrio. Falar sobre transtornos, sim, mas de forma responsável, sem banalizar e estigmatizar. Só assim conseguiremos transformar informação em acolhimento e, principalmente, em acesso a tratamentos adequados”, conclui Susani.