Envelhecer para os sujeitos do Grupo Revivendo a Vida - perdas e ganhos Denise Costa Ceroni “Uma pessoa fica sempre sobressaltada quando a chamam de velha pela primeira vez”. (O. W. Holmes apud Beauvoir, 1990)
O Projeto de Atenção Pedagógica de Educação de Adultos tem como intenção a inclusão dos sujeitos através de atividades culturais, de educação permanente e de relações interpessoais privilegiando as funções físicas e cognitivas. O pano de fundo dessas ações é tecido pelos fios da aprendizagem escolar onde as vivências e os saberes são matéria prima fundamental em sala de aula, espaço de diálogo, de ensinar e de aprender. Atualmente, participam desse projeto cerca de 70 pessoas da cidade de Porto Alegre e do entorno do Centro Universitário Ritter dos Reis. Desde o ano de 2005 o grupo vem se constituindo em um grupo de pessoas em processo de envelhecimento que buscam resgatar seus saberes escolares e construir novos conhecimentos. A identidade do grupo é percebida por seu nome Grupo Revivendo a Vida. E como tem sido ficar velho nessa sociedade aprendente para os participantes do Grupo Revivendo a Vida? Quais são as marcas nesse processo? Como se descobrem velhos e que sentimentos estão impregnados em suas experiências? Na convivência com o grupo, na relação com os educadores, através das temáticas estudadas e nos momentos de lazer, as impressões e os sentimentos transbordam através da fala, das produções escritas, dos gestos e do olhar. É possível perceber os ganhos e as perdas no processo do envelhecimento desses sujeitos? Percebo que alguns participantes do Grupo Revivendo a Vida não se sentem velhos ou idosos, consideram-se “eternamente jovens”, com “espírito jovem”. Capazes de viver em plenitude a sua vida participando ativamente de atividades culturais e recreativas. Assumem mais tarefas que muitas pessoas jovens e sentem orgulho disso. Penso que ao sentirem-se tão jovens negam a própria velhice que já está instalada em suas vidas. Acredito que ressignificar a velhice, não é negá-la, mas dar novo sentido ao processo de envelhecer. Poder pensar a velhice como possibilidade de manter-se ativo e participativo sem a marca da juventude, mas com os ganhos (e as perdas) contemplados com a experiência de vida. A maioria dos sujeitos do Grupo Revivendo a Vida reconhece-se como idosos, envelhecendo de maneira mais prazerosa que seus pais. Buscam a realização dos sonhos que tiveram na juventude. O tempo atual é caracterizado pelo desejo de estar em grupo, aprender e viver cada dia melhor. Têm consciência do “peso” da idade, e dos limites que são impostos tanto pelos padrões sociais, como por suas condições físicas. No entanto, não estão paralisados frente ao envelhecimento, buscam um novo jeito de envelhecer. Participam ativamente de grupos, lutam por seus direitos civis, gostam de estar com pessoas de sua geração e de outras gerações. Refletem sobre as atitudes do passado e tentam resgatar algumas situações não resolvidas. Aprendem que é necessário e possível mudar alguns conceitos e quebrar alguns paradigmas. Descobrem-se capazes de viver em plenitude a última etapa de suas vidas. A revelação da nossa idade, geralmente vem dos outros. É o outro que é velho e muitas são as reações que nos assolam quando ouvimos alguém nos chamar de velhos. Sentimentos gerados pela indignação, a cólera, o insulto, o pavor e até o estranhamento. Ao longo dos tempos tem sido assim, e, no século passado, envelhecer era caminhar para as deficiências, demências, dores, perdas e o declínio da própria existência. Reconhecer a velhice através da imagem do outro que é nosso contemporâneo, pode ser uma tremenda surpresa. Corroboro com Simone de Beauvoir (1990) que retrata em seu livro “A Velhice”, obra que vem quebrar “a conspiração do silêncio” a cerca do envelhecimento humano, quando alude à Sartre uma reflexão profícua, que afirma a velhice pertence àquela categoria que Sarte chamou de irrealizáveis. Seu número é infinito, pois, representam o inverso de nossa situação. O que somos para outrem, é impossível vivê-lo no modo de para si. O irrealizável é o meu ser a distância, que limita todas as minhas escolhas e constitui o seu avesso. Francesa, mulher de escritor, sexagenária, essa situação que eu vivo, é no meio do mundo, uma forma objetiva que me escapa. Mas, o irrealizável não se revela como tal, senão à luz de um projeto que visa a realizá-lo. Francesa, na França, nada me incita a me interrogar o sentido que tem essa qualificação em país estrangeiro ou hostil, minha nacionalidade existiria para mim e eu teria que adotar certa atitude em relação a ela; reivindicá-la, dissimulá-la, esquecê-la, etc. Em nossa sociedade, a pessoa idosa é designada como tal pelos costumes, pelos comportamentos de outrem, pelo próprio vocabulário: ela tem que assumir essa realidade. Há uma infinidade de maneiras de fazê-lo: nenhuma me permitirá coincidir com a realidade que assumo. A velhice é um além de minha vida, do qual não posso ter nenhuma plena experiência interior. De maneira mais geral, meu ego é um objeto transcendente, que não habita minha consciência, e que só pode ser visualizado a distância. (BEAUVOIR, 1990) Tal visualização ocorre através de uma imagem, “representamos quem somos através da visão que os outros têm de nós. O adulto descobre-se velho através dos outros, sem ter sentido as mutações internas, sem ter consciência do rótulo que se cola a ele. Não sabe mais quem ele é. Todavia, percebo que quando há oportunidade de viver o processo de envelhecimento humano em convivência com outros sujeitos e com acesso as informações, mediados por educadores sensíveis ás questões pertinentes na construção de uma nova velhice, envelhecer passa a ser mais uma das etapas de nossas histórias de vida. Pode vir a ser o encontro definitivo com quem realmente me tornei. |