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Povos Indígenas, Tecnologias de Comunicação, Arte e Ensino Superior: O Diálogo Possível Hellen C. de Souza Maria Fragoso Ivanete Parzinello Resumo Este artigo apresenta a proposta do projeto de extensão REDE - Rede Brasileira de Instituições de Ensino Superior com Programas e Projetos para Povos Indígenas. O objetivo do projeto é criar na Internet um espaço de discussão e interlocução entre organizações, lideranças e estudantes indígenas e Instituições de Ensino Superior relacionadas a formação de estudantes indígenas. Palavras-chave: povos indígenas, ensino superior, tecnologias de comunicação. Abstract This article presents the proposal of the project - Brazilian Net for Superior Education Institutions with Programs and Projects for Indigenous Peoples. The objective of the project is to create, in the Internet, a space of debate and exchange between indigenous organizations, leaderships, students and Superior Education Institutions that are envolved with indigenous education. Keywords: Indigenous Peoples, higher education, communication technologies Introdução Esta comunicação trata da análise de resultados obtidos durante a implantação do projeto REDE, Rede Brasileira de Instituições de Ensino Superior com Programas e Projetos para Povos Indígenas no Brasil na Universidade de Brasília. Trata-se da criação de um espaço (homepage), na Internet com a finalidade de diminuir as distâncias e objetivar o diálogo, por meio da ferramenta telemática – telecomunicações informatizadas, entre organizações, lideranças e estudantes indígenas e Instituições de Ensino Superior de algum modo relacionadas ao ensino superior para povos indígenas. A comunicação via sistema telemático (telecomunicação informatizada), quando efetivada, ocorre dentro do próprio sistema. Na Internet, este contato pode ser registrado, transformado em informação, pode ser constantemente atualizado, criando bancos de dados, que por sua vez são disponibilizados para acessos ou consultas, potencializando outras ações. Procuramos estabelecer um organograma que pudesse funcionar de forma circular, incorporando noções de espaço de culturas indígenas, evitando, mais uma vez, o sistema verticalizado de associação de termos e informações. No conjunto arquitetônico, a homepage da REDE deve funcionar como um grande dispositivo de comunicação mediada, onde essa comunicação possa ser registrada e arquivada, atualizada e novamente oferecida ao visitante. O projeto foi viabilizado a partir de uma parceria entre a UnB, Universidade de Brasília e a UNEMAT, Universidade do Estado de Mato Grosso. Em 2006 teve início a construção do portal no domínio http://www.redeestudantesindigenas.net A Questão Indígena e Ensino Superior no Brasil No Brasil vivem atualmente cerca de 200 povos indígenas, falantes de aproximadente línguas distintas. Cerca de 12% do território brasileiro é terra indígena, 80% destas terras localizam-se na região amazônica, ao norte do pais. As condições geográficas e os diferentes contextos do contato entre outros aspectos próprios de cada povo e cultura configuram atualmente um quadro rico e complexo das relações entre povos indígenas e as mais diferente políticas de públicas no Brasil. Este texto junta dois importantes eixos desta relação a democratização das condições e da distribuição do acesso ao ensino superior e as tecnologias de comunicação e informação. A demanda por ensino superior entre povos indígenas é uma experiência recente no Brasil. Os primeiros relatos remetem aos anos 80, ainda no período dos governos militares. Os depoimentos sobre a relação com a FUNAI, Fundação Nacional do Índio para esse período revelam a permanência de um forte viés integracionista e evolucionista na definição das ações para a educação. O índio estudante que quer ser universitário que demanda por educação de qualidade se distância do verdadeiro índio, do índio aldeado e nesse sentido põe em risco a permanência da identidade grupal. Os estudantes deste período lideranças, como Marcos Terena, entre outros, explicam como essa noção de índio verdadeiro em distintos momentos atravessou a luta pelo acesso ao ensino superior e foi usada em algumas comunidades, para desgastar a relação entre as lideranças tradicionais e os jovens estudantes. Desde 1988, a Constituição Federal ao reconhecer o caráter pluriétnico do Estado Brasileiro, garantiu as necessárias bases legais para o estabelecimento de relações menos assimétricas entre os povos indígenas, suas lideranças e suas demandas e as mais diferentes esferas governamentais. No entanto características positivistas que ainda permeiam a estrutura do Estado Brasileiro estão entre os fatores que limitam a consolidação de políticas públicas que atendam a demanda por educação escolar em todos os níveis e o desenvolvimento de um sistema nacional de educação escolar mais coerente com a noção de Estado Plural. Depoimentos de estudantes indígenas em diferentes regiões no Brasil denunciam a ausência de políticas públicas e um projeto de educação escolar que responda ao interesse pela formação profissional, que construa vínculos com a discussão sobre o acesso ao ensino superior e com a garantia de consolidação de políticas de educação básica e de saúde. Sobretudo os depoimentos apontam para um forte deslocamento do eixo de discussão da formação superior relacionada ao trabalho/emprego para outros aspectos relacionados a uma dimensão mais coletiva, voltados para a vida da comunidade. Experiências em outros países latino-americanos remetem as mesmas questões, como aparece no relatório de Jorge Gasché, sobre os programas de formação docente na Amazônia Peruana, uma das críticas centrais se referia ao fato de que depois de 40 anos de escolarização não havia médicos, engenheiros ou advogados indígenas, nem mesmo em formação. O melhoramento da educação básica deveria também facilitar o ingresso das novas gerações aos sistemas de formação profissional e universitária. Nos últimos anos, com significativo salto em 2005 mais de 20 universidades públicas iniciaram e ou implementaram programas de acesso específicos para indígenas. Por outro lado as novas tecnologias de informação democratizam e agilizam as condições de acesso a uma gama variada de informações. Para os estudantes indígenas organizados das mais diferentes e as vezes precárias formas em todas as regiões do país os espaços virtuais, por conta das políticas de inclusão são espaços privilegiados de comunicação rápida e em muitos casos de custo zero. O projeto REDE busca atuar justamente na lacuna do diálogo entre estudantes e entre estudantes e lideranças e instituições de ensino superior por meio da ferramenta telemática – telecomunicações informatizadas – e por uma abordagem digito - cultural. A criação do portal da REDE pode ser entendida como um passo inicial para instituir uma outra ambiência acadêmica capaz de estimular o delineamento de uma proposta que leve ao estabelecimento de possibilidades acadêmicas pautadas em um outro conceito de universidade. Para a Universidade do Estado de Mato Grosso e para a Universidade de Brasília um sinal a indicar a necessidade de ampliar no contexto acadêmico multicultural, como o país, a discussão e a pauta de ações voltadas para o reconhecimento da diversidade. O portal servirá de referência para a viabilização de outras ferramentas como vídeos-conferência, salas de encontros semanais, publicação de artigos e entrevistas, divulgação de eventos, dentre outras. No entanto, a ferramenta digital tem suas características que exigem a atualização, a participação e a interação permanentemente, pois o espaço de comunicação deve ser mantido “vivo” e atuante para cumprir sua função. A REDE como espaço potencializador de relações inter-culturais e interétnicas Rede Internet tem como característica primeira a comunicação mediada pelos sistemas de telecomunicação informatizada, ou seja, é um espaço que prenuncia uma determinada distância entre agentes. Quando esta distância é conquistada, dois pontos, antes distantes, são unidos como uma dobra no espaço/tempo. Dobra esta que não elimina a distância, mas une os pontos que de alguma forma juntos passam a realizar ações tornadas possíveis pelo sistema de comunicação. A comunicação via sistema telemático (telecomunicação informatizada), quando efetivada, ocorre dentro do próprio sistema. Na Internet, este contato pode ser registrado, transformado em informação, pode ser constantemente atualizado, criando bancos de dados, que por sua vez são disponibilizados para acessos ou consultas, potencializando outras ações. A Rede Nacional de Instituições de Ensino Superior com Programas e Projetos para Povos Indígenas propõe a criação de um espaço (homepage), na Internet, que possibilite uma aproximação entre pólos culturais diferentes que compartilham interesses comuns. De um lado a academia, enquanto organismo de transmissão e geração de conhecimentos oriundos de uma tradição européia. De outro lado lideranças, indivíduos e organizações indígenas, enfim, povos indígenas, vivendo em todo o território brasileiro, cujas culturas secularmente desenvolveram diferentes modos de produzir e socializar o conhecimento. Em uma sociedade como a brasileira onde os interesses específicos e os saberes dos povos indígenas estiveram historicamente submetidos e agredidos por uma noção de estado e de universidade construídos e pensados para negar o dialogo e a diversidade a noção ou a intenção de partilhar interesses comuns pode ser melhor visualizada e construída enquanto mediada por espaços de fronteiras menos rígidas como a Internet. Nesse sentido, buscamos trabalhar dentro de uma filosofia do Software Livre, ou também do Open Source, criando um espaço na Internet que dialogue com essas comunidades e quem sabe obter o apoio das mesmas no sentido de oferecer aos estudantes universitários indígenas uma consciência da possibilidade de liberdade ao acesso dos conhecimentos coletivos por meio de recursos que garantem a alteração e utilização do código desde que ele permaneça livre - projeto GNU – Linux. A duras penas os povos indígenas, e no contexto das Instituições de Ensino Superior do Brasil, os estudantes indígenas trabalham para construir espaços de comunicação e dialogo onde os interesses indígenas possam ser partilhados, compartilhados e considerados na execução de projetos e políticas públicas. Trata-se então de pensar e desejar um intercâmbio maior entre diferentes formas e modos de produção e socialização dos saberes e conhecimentos e no acesso as informações garantir uma outra possibilidade de intercâmbio e dialogo pautado em um novo protagonismo indígena e na existência de mecanismos e/ou dispositivos de comunicação que possam ser disponibilizados, com custos mínimos e sem compromissos com interesses específicos, e que motivem e ofereçam espaços para desdobramentos de relações de reciprocidade entre os povos indígenas e suas culturas distintas e as Instituições de Ensino Superior onde eles chegam como alunos. Com esse propósito foi criado o projeto da REDE enquanto espaço cultural de comunicação na Internet. Não apenas mais um site sobre a questão indígena no Brasil, mas um espaço de intercâmbio, de interação, de discussão, sustentado por IES que perseguem paradigmas menos assimétricos entre os saberes considerados científicos e os saberes indígenas. O diferencial buscado no site da REDE não está apenas na seleção de seu conteúdo, mas também numa proposta de design multimídia e de arquitetura de navegação. Ao pensarmos num espaço multimídia que pudesse estimular a comunicação, nossa primeira preocupação foi a de criar um ambiente atraente e simples que fugisse do layout de páginas institucionais ou comerciais. Algo que ‘falasse’ em cultura antes de ‘falar’ em informação, e que convidasse o visitante a explorar e ‘brincar’ com os elementos visuais e sonoros enquanto pesquisa. As imagens utilizadas nos ambientes foram capturadas em visitas a aldeias indígenas, assim como os sons e as ilustrações dos ícones. A navegação esta sendo concebida num formato horizontal, ou seja, mais objetiva e visível a partir da página inicial. Este é um aspecto importante, pois vai facilitar o acesso às informações, evitando o aspecto de labirintos entre páginas e links. Procuramos estabelecer um organograma que pudesse funcionar de forma circular, incorporando noções de espaço de culturas indígenas, evitando, mais uma vez, o sistema verticalizado de associação de termos e informações. No conjunto arquitetônico, a homepage da REDE deve funcionar como um grande dispositivo de comunicação mediada, onde essa comunicação possa ser registrada e arquivada, atualizada e novamente oferecida ao visitante. Estão previstos espaços de envio de sugestões e críticas, de publicação de artigos, de grupos de discussão, de bate-papo, e de exposição de produção artística. As telecomunicações têm ajudado a transpor as distâncias físicas e o tempo de deslocamento, unindo indivíduos e grupos sociais, levando informação por telégrafos, rádios, televisões, telefones e mais recentemente via Internet. Como nos diz o artista e pesquisador Gilberto Praddo (1994), à medida que a sociedade consome os dispositivos telemáticos, vemos que a utilização destes sistemas vêm penetrando todas as camadas sociais e se integrando nas atitudes mais banais do nosso cotidiano, e esta mesma sociedade passa a compreender que os computadores e as redes de telecomunicação são indissociáveis da infraestrutura econômica e de informação. McLuhan (1965), acreditava na tecnologia da comunicação como um verdadeiro e próprio evento antropológico, capaz de reconfigurar radicalmente a vida do homem e a sua experiência estética, sugerindo o aparecimento de um organismo humano planetário. Segundo ele, a estética da comunicação foge do domínio do artista como indivíduo e da forma como elemento estético e se concentra nos sistemas de rede e canais, subtraindo-os à funcionalidade expressiva, e utilizando-os na sua essência de dispositivos tecnológicos de comunicação a distância, para realização de eventos estético-antropológicos. Os Desafios da Construção: Atividades Desenvolvidas A discussão teórica e as atividades do projeto se realizam na interface dos estudos sobre as novas tecnologias de comunicação, arte, educação e antropologia. As atividades elencadas abaixo apresentam um panorama geral da proposta seus limites e os desafios. Um trabalho fundamental para o projeto é a pesquisa e a ampliação do Banco de Dados e do mapeamento sobre IES com programas e projetos para povos indígenas. O trabalho é realizado por bolsistas na UnB e na UNEMAT. Os encontros e seminários presenciais constituem-se uma das atividades mais significativas enquanto desencadeador de uma série de outras atividades ‘on line’. O envolvimento dos estudantes em diferentes contextos teve como desdobramentos desde a organização de oficinas de expressões culturais indígenas e a participação na UnB da Semana de Extensão, e Semana Nacional de C&T em Brasília e em Mato Grosso. No início do ano a participação na 56th Conference of the University of Florida Center for Latin American Studies com o tema: Indigenous Peoples in Digital Cultures “Children of a Common Mother” promovida pelo Digital World Institute na Universidade da Florida/EUA e comissionada pelo Digital Knowledge Exchange (United Kingdom) (http://www.digitalworlds.ufl.edu/projects/CCM/default.htm) transformou-se em um importante espaço de diálogo com grupos indígenas de todo o continente. O grupo Nação Nativa Umutina e a cacique Cleuza Soripa da aldeia Umutina em Barra do Bugres no Mato Grosso foram os responsáveis pelas apresentações. Nesse sentido, esta cada vez mais claro que a participação em eventos assim tem fortalecido o objetivo da REDE de vir a desenvolver atividades de Tele-conferência multimídia e estimular novos contatos com outros grupos interessados; Considerações Finais Mais do que nunca, estamos diante de uma tecnologia que possibilita a interação entre áreas de conhecimento que, em termos acadêmicos, vai propiciar uma trans- disciplinariedade e uma abertura para novos campos de pesquisa. Acreditamos na imponência e ubiqüidade da tecnologia sobre a produção e expressão do conhecimento e da pesquisa contemporânea inserida no ambiente telemático, mas acreditamos também na necessidade da expressão e da presença da identidade como elementos catalisadores dos processos desencadeados pelos dispositivos sendo criados nos ambientes telemáticos. Acreditamos, inclusive, que a questão da identidade é fator primordial nas comunicações mediadas e permanece como elemento chave nos processos de troca de informações. A REDE - Rede Nacional de Instituições de Ensino Superior com Programas e Projetos para Povos Indígenas, em sua proposta de criação de um espaço diferenciado para aproximação entre pólos culturais diferentes, aposta no potencial dos sistemas telemáticos associado ao poder comunicativo da multimídia para buscar o intercâmbio, a interação, a discussão e troca de conhecimentos em contextos interculturais. REFERÊNCIAS ARIZPE, Lourdes (Org.) As dimensões culturais da transformação global: uma abordagem antropológica. Brasília. UNESCO. 2001. |