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Difusão em português: uma ação em contexto timorense

Regina Helena Pires de Brito



Em primeiro lugar eu quero dizer
Obrigado para vocês porque durante
O tempo vocês ensinar muintas coisas
Por nos através da língua português
Cultura musica e puisia de brazileira.
E eu espero que com nosso encontro
podemos dar uma coisa especial em nosso
coração de cada um.
timor e Brazil

(Comentário de participante timorense)

Resumo

O "Universidades em Timor-Leste" é um projeto de natureza acadêmica, visando à sensibilização para a comunicação em língua portuguesa naquele país, proibido, durante os 25 anos de dominação indonésia, de expressar-se em português. Procura difundir entre os timorenses a nossa língua comum, de modo a levar ao sistema formal de ensino de português, especialmente a parcela da população que foi educada em língua indonésia e com dificuldades de expressão numa de suas duas línguas oficiais (o português é oficial ao lado da língua nacional, o tétum).

Palavras-chave: lusofonia - ensino de língua portuguesa - comunicação

Diffusion in Portuguese Language: an action in Timorese context

Abstract

This paper presents the “Universidades em Timor-Leste”, a project which activities aims at the mobilization about the communication en Portuguese language in that country, forbidden for so long time (25 years of the Indonesia domination) to express in Portuguese. This project is looking for disseminating our common language between the Timorese, giving them a formal system of Portuguese instruction, specially to that part of people which were educated in Indonesian Language and have many difficulties of expression in one of its two official languages (the Portuguese is official by side the national language, the tetum).

Keywords: Lusophony; Portuguese language instruction; communication.

Preliminares

Timor-Leste foi colônia portuguesa desde o século XVI, ocupada pelo Japão durante três anos, (na Segunda Grande Guerra), pelos australianos (em 1942) e cenário da invasão da Indonésia, num incurso que durou de 1975 a 1999. Com a política de “destimorização” aplicada pelos indonésios, incluiu-se uma nova forma lingüística, traduzida pela imposição da bahasa indonésia (uma variante do malaio) como língua do ensino e da administração, pela minimização do uso do tétum (língua nacional ) e pela perseguição da expressão em língua portuguesa - provas de que o regime da ocupação reconheceu o significado estratégico da língua portuguesa (e, por extensão, da fé católica e dos valores tradicionais timorenses - elementos da especificidade identitária da metade oriental da ilha, que foram sempre os alvos das campanhas de ocupação).

Com a constituição da República Democrática de Timor-Leste, em maio de 2002, a língua portuguesa assume o estatuto de oficial, ao lado do tétum. Atualmente, novas peças foram acrescidas ao intricado mosaico lingüístico que é Timor Lorosa´e: além do tétum, falado por toda a parte, e de dezenas de outras línguas locais, os timorenses falam a língua indonésia e procuram se expressar em inglês e português.

Estimativas apontam que as crianças em fase pré-escolar falam tétum (repleto de palavras do português), os adolescentes e adultos jovens utilizam-se da língua indonésia e a geração com mais de 40 anos fala português. Complementarmente, as pesquisas revelam que o português é falado por 20% da população de 800 mil habitantes.

Embora o tétum seja a língua de comunicação cotidiana dos timorenses, em algumas localidades, como a região que compreende o Distrito de Covalima (quase fronteira com a Indonésia, onde se fala também o bunak), parece-nos que a língua indonésia funciona com maior intensidade como língua veicular, conforme breve inquérito que realizamos in loco: de 18 timorenses, com idade entre 23 e 35 anos, 3 sabem se expressar (ainda que precariamente) em português, 7 em inglês, 18 em bahasa indonésia e 16 em tétum.

Diversamente do que ocorreu em muitos países na época de descolonização, em 1975, Timor-Leste tinha uma certa unidade lingüística, garantida, como vimos, pelo uso do tétum. Além disso, apesar de criticar o colonialismo salazarista, tanto a Fretilin (Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente) quanto a Apodeti (Associação Popular Democrática Timorense, favorável à indexação pela Indonésia) continuaram a valorizar a língua portuguesa como elemento ancestral e integrado na cultura nacional (Hull).

A partir de 1 agosto de 2002, durante a IV Conferência de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (realizada em Brasília), Timor-Leste passou a figurar como membro efetivo da CPLP - nas palavras do Presidente Xanana Gusmão:

A opção política de natureza estratégica que Timor-Leste concretizou com a consagração constitucional do Português como língua oficial a par com a língua nacional, o tétum, reflecte a afirmação da nossa identidade pela diferença que se impôs ao mundo e, em particular, na nossa região onde, deve-se dizer, existem também similares e vínculos de carácter étnico e cultural, com os vizinhos mais próximos. Manter esta identidade é vital para consolidar a soberania nacional.

Na verdade, a função e a necessidade da revitalização língua portuguesa são temas amplamente discutidos pelos próprios timorenses. Compreende-se o português como elemento capital tanto para a salvaguarda das línguas nacionais, quanto para a preservação da identidade nacional:

se Timor Leste deseja manter uma relação com seu passado, deve manter o português. Se escolher outra via, um povo com uma longa memória tornar-se-á numa nação de amnésicos, e Timor Leste sofrerá o mesmo destino que todos os países que, voltando as coisas ao seu passado, têm privado os seus cidadãos do conhecimento das línguas que desempenharam um papel fulcral na gênese da cultura nacional. (Hull, s/d, p. 3).

Retomando as palavras de Xanana Gusmão: caso somente o tétum seja mantido, o povo não terá acesso a informações universais contidas em livros; se Timor Leste adotar exclusivamente a língua indonésia, o conhecimento ficaria restrito ao saber que a Indonésia lhes proporcionasse. O Português, como língua oficial, possibilita, dentre outras coisas, o resgate e a manutenção do caráter híbrido da cultura timorense e o acesso ao conhecimento já disponível nos países lusófonos - que já contam, especialmente em Portugal, e já agora no Brasil, com diversos estudos sobre cultura e história timorense. É preciso, também, valorizar a força do português, sexta língua mais falada no globo, como uma forma de união entre os oito países da CPLP e um mecanismo de inserção dos timorenses no mundo globalizado.

Neste contexto, o futuro do português, língua de cultura, como língua oficial “de”/“em” Timor-Leste, dependerá muito da política educacional e cultural, da mobilização dos vários setores da sociedade, da disposição da comunidade e do apoio dos países lusófonos. É no âmbito da cooperação internacional que se insere o Projeto Universidades em Timor-Leste, realizado, num primeiro momento, em ação conveniada entre a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) e a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), pelo lado brasileiro, com o apoio da Universidade Nacional de Timor-Leste (UNTL) e do Instituto Nacional de Lingüística (INL), pelo lado timorense. Foi com o subprojeto Canção Popular e Cultura Brasileiras em Timor-Leste: Hibridismo cultural e comunitarismo lingüístico em execução e discussão, de nossa autoria e co-autoria de Benjamin Abdala Junior (USP), que a ação ocorreu entre agosto e dezembro de 2004.

O Projeto Universidades em Timor-Leste

Apoiando-se em investigação sociolingüística, aliada a debates com os lingüistas Benjamin Corte-Real e Geoffrey Hull , o Projeto fundamenta-se em estudos descritivos da situação lingüística e cultural do país, a partir de entrevistas, consultando indivíduos pertencentes a diferentes faixas etárias, classes sociais, localidades, escolaridade, profissões e sexo. Complementarmente, foram recolhidos e analisados textos produzidos por timorenses e coletados elementos de natureza diversa, como músicas, receitas, jornais, cartazes, panfletos etc - o que forneceu subsídios para análises contrastivas que evidenciaram especificidades lingüísticas e culturais de cada Distrito timorense.

Esta iniciativa, submetida à aprovação de instâncias governamentais, educacionais e lingüísticas timorenses, define-se como programa pedagógico-cultural para auxiliar na difusão e sensibilizar para a comunicação e a expressão em português, em conformidade com a política nacional de cooperação entre os países de língua portuguesa, utilizando-se, neste caso, da canção popular brasileira como motivação didática.

O Projeto envolveu a seleção, preparação, deslocamento e fixação de um grupo de graduandos - ligados, sobretudo, às áreas de Letras, Comunicação, Artes e Educação das três universidades brasileiras conveniadas. Com relação à constituição da equipe, segundo as autoridades timorenses, o fato de ser constituída não por “profissionais formados” foi um grande diferencial, facilitando o entrosamento pela horizontalidade entre universitários brasileiros e participantes timorenses. O acompanhamento didático foi realizado in loco por uma “coordenação acadêmica”, que se dirigia ao Conselho Executivo e à Coordenação Lingüística e Didático-Pedagógica, baseados no Brasil.

Convém assinalar que, situando-se no âmbito da cultura brasileira, se, por um lado, o Projeto não privilegia o ensino da gramática normativa, por outro, não deixa de contribuir como meio auxiliar do processo de reintrodução e de difusão da língua portuguesa no país, apoiado em música popular brasileira e em textos literários.

Quanto ao público-alvo, inicialmente, o projeto fora idealizado para atingir a um recorte específico da população mais resistente ao aprendizado do português e que ainda não tinha sido contemplada, diretamente, por outro programa de cooperação internacional. Contudo, quando da apresentação do Projeto às autoridades, em 2003, verificou-se o interesse de outros segmentos fazendo com que tivéssemos a clientela ampliada. Desta forma, incluímos alunos da Escola Primária Duque de Caxias; integrantes das Forças de Defesa de Timor-Leste; funcionários do Ministério da Educação, Cultura, Juventude e Desporto; Organização da Juventude e dos Estudantes de Timor-Leste e, ainda, docentes da Faculdade de Letras e Educação da UNTL. Assim, as atividades desenrolaram-se em diversas instituições oficiais, escolares e comunitárias, tendo como público “regulamente inscrito e participante” cerca de 600 leste-timorenses.

Cada turma participava de dois encontros semanais com duração de 1h40 cada, ministradas por equipes de 3 monitores, que planejavam as atividades tendo em vista o Descritivo de atividades módulo a módulo - material elaborado não como um manual de instruções, mas como um norteador das ações didáticas que garantisse a homogeneidade dos trabalhos, sem, contudo, limitar a criatividade da equipe.

Partindo de uma concepção sociofuncional dos fatos da linguagem, associando elementos musicais e lingüísticos ao conjunto da cultura brasileira, em atividades epilingüísticas, de operação e de reflexão sobre os textos e alguns fatos de língua, as atividades organizaram-se em 14 módulos, formados por músicas brasileiras e textos em torno de temas como: amor, religiosidade, futebol, carnaval, saudade, esperança, tempo, loucura, construção poética, saudações e cumprimentos. As músicas foram selecionadas considerando-se o interesse do público e canções já conhecidas (e indicadas!) por timorenses, às quais acrescentamos outras relacionadas com os temas. Após os 7° e 14° módulos, foram realizadas avaliações parciais (preparação e apresentação de trabalhos em cada turma) e uma avaliação final (apresentação de coral, peças de teatro, jogral etc, apreciados pelo público timorense no auditório da UNTL).

O contato com músicas e com textos de modalidades várias permitiu a abordagem, ainda que indiretamente, de tópicos como: os papéis da cultura brasileira e da língua portuguesa no contexto mundial e em Timor-Leste; a diversidade da música brasileira e de nossas variedades lingüísticas; o conhecimento de outras culturas expressas via língua portuguesa; aspectos da multiplicidade lingüística de Timor-Leste; a importância da comunicação; a relação entre língua e cultura e a problemática tradução “palavra-por-palavra”.

As aulas recorreram à reprodução original das canções em CD player e à execução ao vivo, procurando sensibilizar para o aprendizado do manuseio dos instrumentos musicais utilizados, da atividade de composição musical e do manejo de recursos lingüísticos básicos.

Também não se podia pensar numa atuação significativa sem estabelecer uma relação com a realidade cultural local e desconsiderando a visão de mundo que a modalidade do português timorense (e, naturalmente, a das línguas locais) revela; dessa forma, é impossível ignorar que as línguas são fatos culturais e que o aprendizado de uma língua supõe, ao lado do seu domínio, o conhecimento da cultura que a sustenta e o respeito à multiplicidade de olhares. Neste sentido, são significativas as impressões do entrosamento entre brasileiros e timorenses registradas no Relatório Avaliativo do Projeto encaminhado pela UNTL:

O sucesso de fundo do projecto não deixa de ser o ter-se promovido uma interacção cultural entre jovens da comunidade e do espaço lusófonos, um principiar tentativo, mas de evidente rendimento; o gerar-se de uma amizade e solidariedade entre gente que nunca imaginava antes poder cruzar-se. A electricidade que se sentiu no aeroporto, aquando da despedida dos estagiários serve de ilustração. Foi uma singular e espontânea exibição de cantares e danças tradicionais, assinalando uma camaradagem invejável entre jovens de latitudes tão opostos mas unidos por um denominador comum que é o do seu passado histórico, a língua e a cultura portuguesas. (CORTE-REAL, 2006, p. 154)

Outra preocupação do Projeto: tornar os usuários conscientes de que cada sistema configura-se diversamente, mostrando, por exemplo, que a estrutura da língua portuguesa é diferente do tétum ou da língua indonésia, embora o conteúdo da mensagem seja preservado - em outros termos, além das palavras e das regras gramaticais, é preciso aprender, também, a “pensar” na outra língua.

Quanto aos resultados destacamos:

  • a sistemática e a dinâmica desenvolvidas que se mostraram inovadoras e eficazes para atingir os objetivos no contexto timorense;
  • o material didático que foi elaborado especificamente para a situação timorense e se revelou instrumento fundamental para o sucesso das atividades de sala de aula, garantindo a homogeneidade de conteúdo na sua aplicação nas diversas turmas;
  • a idéia de ter uma equipe constituída de jovens universitários (e não de profissionais formados) foi um grande diferencial, facilitando o entrosamento pela horizontalidade;
  • após momentos iniciais de certo estranhamento em relação à proposta, os timorenses, paulatinamente, passaram de uma posição tímida, submissa e retraída, para uma atitude mais participativa, entusiasmada, ativa, altamente receptiva;
  • o número (oficial) de timorenses beneficiados chegou a 594 alunos, excluindo-se aqueles que assistiam às aulas esporadicamente, os que participavam sem estarem regularmente inscritos e, ainda, os timorenses que tiveram nossos próprios alunos como multiplicadores das atividades do Projeto, numa atitude natural do convívio cotidiano. Também vale registrar o uso que muitos professores timorenses vêm fazendo do método e do nosso material didático em suas aulas.

Pensando no grande objetivo, ou seja, na sensibilização para a comunicação em língua portuguesa, registramos que o fato de as turmas serem constituídas por indivíduos de diferentes níveis de conhecimento, domínio e uso da língua portuguesa não influenciou no resultado geral observado, no tocante a:

  • aproximação com a Língua Portuguesa;
  • simpatia pela expressão em Língua Portuguesa;
  • interesse pelo aprendizado da Língua Portuguesa;
  • curiosidade pela cultura brasileira e pelas semelhanças com a timorense e com a portuguesa;
  • certa desinibição para a expressão oral em português;
  • notável esforço para o registro escrito em português.

Percebe-se uma alteração na postura de muitos frente ao português que, afinal, “não é tão difícil assim” - como registram relatórios dos participantes e de autoridades e depoimentos de alunos timorenses. Além disso, procuramos levar a Timor-Leste uma maneira diferente de se pensar a disseminação da língua portuguesa, uma outra possibilidade de acesso à educação formal em português, um enriquecimento cultural mútuo:

[...] de carácter informal e recreativo, além do usufruto do material pedagógico seleccionado para adequar ao gosto do público-alvo, o projecto conseguiu relaxar uma tensão que nem deveria existir, mas que subsistiu por muito tempo no seio da juventude e a larga população não-escolar. O projecto, através da sua seriedade científica e dos seus excelentes actores, conseguiu conquistar novos espaços fora das paredes do ensino formal, abrindo canais auxiliares para o florir efectivo e afectivo da língua na larga sociedade timorense. A música e a poesia permitiram ao aprendente informal o empolgar do conceito do espaço lusófono e das mais valias que lhe são inerentes.

[...] Deve-se notar que um dos factores importantes do sucesso do projecto foi o facto de o público timorense adorar as músicas brasileiras. Estas possuem um poder cativante, donde brota toda uma curiosidade que pode levar à voluntária busca da compreensão dos dizeres.

(CORTE-REAL, 2006, p.154)

Considerações Finais

Para que se efetive a expansão do uso da língua portuguesa em Timor-Leste, muito ainda há a ser feito, e governos e universidades podem contribuir para o processo, assumindo os papéis de membros ativos e cooperativos na CPLP e na sua vertente cultural, a AULP - Associação das Universidades de Língua Portuguesa. Após o período em que a voz da língua portuguesa teve que se calar em Timor-Leste, as atividades desenvolvidas pelo Projeto Universidades em Timor-Leste procuraram propiciar um espaço de interação em que foi garantido o direito à expressão em português e em que o sujeito foi o ator principal de seu aprendizado. Para outras atividades semelhantes que venham a se concretizar, esperamos que os aspectos aqui tratados possam ser considerados como relevantes para o bom desenvolvimento de um programa sócio-cultural e educativo que objetive a motivação para a aprendizagem de uma língua.




(Figuras 1 e 2 - Relatos de participantes timorenses)

REFERÊNCIAS

BRITO, Regina Helena Pires de; FACCINA, Rosemeire; BUSQUETS, Vera. Sensibilizando para a comunicação em lingua portuguesa: uma experiência em Timor-Leste. São Paulo, Mackpesquisa, 2006.
COMUNIDADE DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA. Disponível em www.cplp.org/noticias/ccegc/di7.htm . Acesso em agosto de 2002.
CORTE-REAL, Benjamim. Sensibilizando para a comunicação em lingua portuguesa: uma experiência em Timor-Leste. São Paulo, Mackpesquisa, 2006. Comentário Avaliativo - Universidade Nacional Timor Lorosa ‘ e. p. 153-66.
HULL, Geofrey. Timor Leste - Identidade, língua e política nacional. Lisboa, Instituto Camões, s/d, p. 3.