O Espaço e a Vida Comunitária: estudo e diagnóstico Orfanotrófio I Liria Romero Dutra Resumo O Programa Interdisciplinar Comunidades Urbanas do UniRitter desenvolveu entre agosto e dezembro de 2006 o projeto “O Espaço e a vida comunitária: estudo e diagnóstico Orfanatrófio I”, visando a conhecer mais profundamente a Vila Orfanatrófio e a desenvolver uma metodologia de pesquisa integrada à extensão. O desenvolvimento do projeto fortaleceu os vínculos entre o UniRitter e a comunidade e seus resultados estão reorientando as atividades de extensão. Palavras-chave: diagnóstico; Orfanatrófio I; metodologia de pesquisa. Abstract UniRitter’s Interdisciplinary Program Urban Communities carried out a project entitled “Place and community life: Orfanatrófio I study and diagnosis” from August to December 2006. The study aimed at getting to know Vila Orfanatrófio more deeply and at developing a research methodology integrated with the UniRitter extension program. The project development strengthened the bonds between UniRitter and the surrounding community, and its results are redirecting extension activities. Keywords: diagnosis; Orfanatrófio I; research methodology. História: o espírito do Programa O Programa Interdisciplinar de Extensão Comunidades Urbanas é um programa temático que resulta da proposta institucional de aprofundar as atividades extensionistas, visando a contribuir para a construção coletiva da cidadania e condições para seu gozo nas dimensões civil, social e política. Sua história relaciona-se à definição, em 2004, pela Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-graduação e Extensão, das prioridades em extensão universitária. Naquela oportunidade, a Pró-Reitoria elegeu como prioritárias as ações de cunho comunitário e social delimitadas por duas dimensões básicas: a construção de conhecimento acadêmico e a inserção social, objetivando a produção de alternativas conjuntas entre o saber acadêmico e o saber popular. Tendo em vista a política definida, passou-se à busca de condições institucionais para reconhecimento e promoção da diversidade social e sociocultural por meio da atividade acadêmica extensionista. O “Comunidades Urbanas”, como é designado pelos professores e alunos que atuam em seus projetos, teve início em julho de 2005, respondendo à necessidade de reunir o trabalho extensionista com origem nas áreas do conhecimento desenvolvidas no UniRitter. Buscava-se, naquele momento, uma agregação através da qual as atividades pudessem ser potencializadas, já que todos os projetos tinham como foco trabalhos desenvolvidos em parceria com comunidades, organizações e instituições públicas ou privadas do terceiro setor. No âmbito do Programa, a extensão universitária é concebida a partir dos elementos que promovem a auto-identificação das comunidades urbanas, visa a conhecer os mecanismos de organização e significação do espaço, da cultura, da história, da economia, do conhecimento, das normas e das relações nas comunidades. (CENTRO UNIVERSITÁRIO RITTER DOS REIS, 2005, p.1). Pretende-se superar a idéia de extensão de caráter assistencialista, que pressupõe a doação, pela universidade, de recursos ou trabalho para minimizar as dificuldades porventura existentes nas comunidades. Busca-se constituir, com a comunidade, na comunidade, espaços de crescimento através dos quais a comunidade mesma, à medida que se empodera, encontre caminhos para alterar sua realidade. A característica especial do Programa é seu empenho “na criação de uma metodologia de investigação interligada à de atuação extensionista, [que se associa à intenção de] reaplicar técnicas, compartilhar conhecimentos e estimular a formação de multiplicadores.” (CENTRO UNIVERSITÁRIO RITTER DOS REIS, 2005, p.1). Da concepção do Programa decorreu a necessidade de desenvolver diagnósticos sobre as comunidades com as quais o UniRitter vem se relacionando. Não se pode, evidentemente, propor um trabalho de construção colaborativa de saídas para os problemas sociais das comunidades sem que se as conheçam. Definição do Projeto: como se chegou a ele Entre 1999 e 2001 foi desenvolvido, pelo UniRitter, um estudo etnográfico em escolas da Vila Cruzeiro. (CAREGNATO, Célia Elizabete; HASSEN, Maria de Nazareth Agra; MAGGI, Noeli Reck, 2001). Entretanto, depois dessa data, não houve projeto desenvolvido com rigor científico que retratasse uma comunidade. Conseqüentemente, até 2006, não se havia desenvolvido uma metodologia de investigação interligada à de atuação extensionista. Essa lacuna é superada pelo desenvolvimento do projeto “O Espaço e a Vida Comunitária: estudo e diagnóstico Orfanotrófio I”, no qual a pesquisa é estágio prévio e também parte fundamental do acompanhamento do processo de atividades de extensão. Dentre os propósitos do projeto está justamente o desenvolvimento de uma metodologia de investigação que pode ser reaplicada, permitindo que o UniRitter conheça em maior profundidade outras comunidades junto às quais venha a desenvolver atividades extensionistas. Por que a Vila Orfanatrófio I A Comunidade Orfanatrófio I, que pode ser vista na planta (figura 1) e na foto aérea abaixo (figura 2) é uma daquelas com que o UniRitter mantém relação de longa data. Há cerca de dez anos desenvolve-se, no Núcleo de Meninos e Meninas São José, mantido pelo Centro Comunitário da Vila Orfanatrófio, o projeto de “contação de histórias”. Os moradores da Vila são, freqüentemente, parte do público de cursos, oficinas e outras atividades de extensão propostas pelo UniRitter. O Núcleo de Inclusão Digital instalou um pequeno laboratório de informática na comunidade; um domingo por mês, o cinema brasileiro é levado, pelo UniRitter, à comunidade; a busca da qualificação da gestão traz microempresários da região ao Centro Universitário. Em suma, a Vila Orfanatrófio I é parceira do UniRitter na busca da melhoria das condições de vida e da conquista da cidadania das pessoas que ali habitam.
Apesar desse vínculo estável, o Centro Universitário não dispunha de dados objetivos sobre essa comunidade, que lhe permitissem não só avaliar os efeitos do trabalho extensionista, mas também propor a ela projetos que viessem a contribuir para a afirmação de uma identidade positiva e alterar suas condições atuais de vida. Em virtude disso, a comunidade foi escolhida para a primeira iniciativa de investigação do Programa Interdisciplinar de Extensão Comunidades Urbanas. Caráter Interdisciplinar O projeto “O Espaço e a Vida Comunitária: estudo e diagnóstico Orfanotrófio I”, objeto deste trabalho, define-se, então, como uma pesquisa quanti-qualitativa promovida pelo Programa Temático Comunidades Urbanas da ProPEx que, por seus princípios e objetivos, exige a construção de um agir interdisciplinar. Buscou-se, em virtude disso, o estabelecimento da interdisciplinaridade em todos os estágios de desenvolvimento do projeto, desde a organização da equipe que o desenvolveu até a produção do relatório da atividade. A equipe de professores e alunos envolvidos contemplou as seguintes áreas do conhecimento: Letras, Arquitetura, Administração, Pedagogia, Direito e Sistemas de Informação. Essa equipe trabalhou colaborativamente, durante todo o período de duração do projeto, de agosto a dezembro de 2006, definindo os instrumentos de coleta de dados e os critérios para aplicação dos mesmos; discutindo formas de abordagem da população-alvo; compartilhando experiências vividas na comunidade e refletindo sobre elas. A cooperação marcou também o processo de análise dos dados e a própria redação do relatório preliminar do projeto. A primeira preocupação foi a elaboração do questionário (Anexo A), que se pretendia o mais exato e eficiente possível, mas sem ser demasiadamente invasivo e exógeno. Algumas reuniões foram destinadas a tal fim, tendo-se definido perguntas ligadas à (i) identificação dos moradores: número de pessoas que habitam a residência, número de gerações, faixa etária, tempo de residência; (ii) dos lotes e das residências: tamanho dos lotes, qualidade das construções, número de peças; (iii) da realidade social: crença, situação jurídica da moradia, avaliação de serviços públicos, educação e cultura; (iv) da relação com o UniRitter; (v) e da realidade política dos moradores: atuação política, atuação comunitária, interesse político. Apesar de a maioria dos bolsistas de extensão já estarem inseridos em projetos em desenvolvimento na comunidade, antes da ida a campo realizaram-se encontros preparatórios em que se destacaram a importância de se estabelecer uma relação empática e respeitosa com os entrevistados. Ao mesmo tempo, buscavam-se os dados do Censo 2000, do IBGE, com os quais foram, posteriormente, cotejados os oriundos da pesquisa; traziam-se elementos do Departamento Municipal de Habitação (DEMHAB) de Porto Alegre, que subsidiaram a análise dos dados e providenciavam-se fotos aéreas, mapas e plantas da região, para que fosse possível construir um retrato fidedigno da Vila. Descrição da Metodologia Optou-se por desenvolver a investigação através de procedimentos quanti-qualitativos, uma vez que se trata de um objeto múltiplo, impossível de ser apreendido apenas estatisticamente. Apoiamo-nos, para tanto, em Minayo (1994, p. 22): Não existe um “continuum” entre “qualitativo-quantitativo”, em que o primeiro termo seria o lugar da “intuição”, da “exploração” e do “subjetivismo”; e o segundo representaria o espaço do científico, porque traduzido “objetivamente” e “em dados matemáticos”. A diferença entre qualitativo-quantitativo é de natureza. Enquanto cientistas sociais que trabalham com estatística apreendem dos fenômenos apenas a região “visível, ecológica, morfológica e concreta”, a abordagem qualitativa aprofunda-se no mundo dos significados das ações e relações humanas, um lado não perceptível e não captável em equações, médias e estatísticas. (Grifos da autora). Três instrumentos foram, então, utilizados para a coleta de dados: um questionário fechado (Anexo A), um instrumento para observação da qualidade construtiva das habitações (Anexo B) e um diário de campo. O questionário foi aplicado no período de setembro a novembro de 2006 a pessoas da comunidade que correspondem a uma amostra de aproximadamente 30% das famílias ocupantes dos lotes , totalizando cinqüenta e nove (59) entrevistas. O número de entrevistas é estatisticamente elevado, útil para a elaboração de análises, e só foi possível pela boa recepção que mereceram nossos estudantes por parte dos moradores da Orfanatrófio I. Vários fatores contribuíram para isso - o apoio da liderança comunitária, o reconhecimento do Centro Universitário e o conhecimento da atuação extensionista na comunidade. A realização das entrevistas foi sendo avaliada sistematicamente pelos bolsistas e professores. Dentre as modificações discutidas e implementadas esteve a elaboração de um diário de campo, muito útil nas reuniões realizadas e para o processo de análise posterior. A essas reuniões de avaliação do processo chegaram, por exemplo, notícias de receios da comunidade motivados pela circulação intensa de pessoas do UniRitter pela área da Vila. Um deles, que produziu momentos de reflexão sobre nossa estratégia, porque inicialmente prejudicou a espontaneidade dos sujeitos nas respostas à entrevista, foi o boato de que o UniRitter estaria buscando comprar o espaço da Vila para ampliar o campus. O boato, prontamente negado, acabou, posteriormente, sendo motivo de maior descontração entre bolsistas e comunidade e, afinal, não influenciou a coleta de dados, mas o fato serve de alerta para que a atuação extensionista seja, cada vez mais, gerada em conjunto com a comunidade. Ao mesmo tempo em que se fizeram as entrevistas, os estudantes, em especial os de Arquitetura, realizaram uma observação orientada por instrumento para a análise da qualidade construtiva. Cremos que essa seja área em que a instituição poderá, em médio prazo, contribuir mais intensamente para a melhoria das condições de vida da população da Vila, oferecendo à comunidade oficinas e debates temáticos sobre formas de melhorar o conforto ambiental das habitações. O critério de aplicação dos questionários foi geográfico: entrevistou-se o morador de uma casa, falharam-se duas e voltou-se a entrevistar, buscando-se evitar a concentração de entrevistas nas vias principais e nas casas de mais simples aproximação. Pela distribuição territorial dos lotes em que foram procedidas as entrevistas, que se pode ver no mapa a seguir (figura 3), em que aparece a distribuição das habitações cujos chefes de família foram entrevistados, parece-nos que o objetivo foi atingido, tendo como única dificuldade a necessidade de voltar muitas vezes à mesma casa, já que não foram realizadas, por critério do UniRitter, pesquisas à noite.
Em decorrência das discussões que foram sendo desenvolvidas entre os membros da equipe: bolsistas e professores, julgou-se necessário o uso de um diário de campo, a fim de que as observações e reflexões procedidas durante os contatos com a comunidade pudessem ser registradas e compartilhadas. Dentro da idéia de registro dos dados, destacamos o uso do diário de campo. Como o próprio nome já diz, esse diário é um instrumento ao qual recorremos em qualquer momento da rotina do trabalho que estamos realizando. Ele, na verdade, é um “amigo silencioso” (grifo do autor) que não pode ser subestimado quanto à sua importância. Nele diariamente podemos colocar nossas percepções, angústias, questionamentos e informações que não são obtidas através da utilização de outras técnicas. O diário de campo é pessoal e intransferível. Sobre ele o pesquisador se debruça no intuito de construir detalhes que no seu somatório vão congregar os diferentes momentos da pesquisa. Demanda um uso sistemático que se estende desde o primeiro momento da ida ao campo até a fase final da investigação. Quanto mais rico for em anotações esse diário, maior será o auxílio que oferecerá à descrição e à análise do objeto estudado. (CRUZ NETO, 1994, p. 63-64). Essa estratégia somou positivamente para o processo de avaliação da relação entre a Instituição e a Comunidade. Desses registros vieram os elementos para a análise qualitativa dos dados. Os dados objetivos alimentaram sistema informático: usou-se o SPSS (Statistic Package for Social Sciences), capaz de realizar os mais diversos cruzamentos; depois de descritos e sistematizados em um relatório preliminar, a análise está sendo aprofundada e deverá resultar a publicação de um relatório final. Considerações finais O desenvolvimento do projeto “O Espaço e a Vida Comunitária: Estudo e Diagnóstico Orfanatrófio I” permitiu não só que se levantassem dados sobre a Comunidade, que já estão norteando e redimensionando as atividades de extensão junto à Vila, mas também que professores e alunos do UniRitter vivessem dois processos importantes: (i) a experiência de construção interdisciplinar e cooperativa de conhecimentos, já que a equipe de trabalho foi composta por professores e alunos de todas as áreas de conhecimento representadas no Centro Universitário, que participaram de todas as fases do projeto, cada um trazendo suas experiências e visões de mundo, o que enriqueceu sobremaneira o trabalho e (ii) a oportunidade de aproximação com uma comunidade em situação de vulnerabilidade social que deseja superar sua condição atual e, por isso, associa-se ao UniRitter, emprestando à Instituição seus saberes e, mais do que isso, expondo-se, porque confia em que os caminhos da superação devem ser coletivos. Ambos, Instituição e Comunidade, saímos fortalecidos desse contato estreito. Cruz Neto (1994, p. 64) sintetiza bem a riqueza da oportunidade que vivenciamos: O trabalho de campo, em síntese, é fruto de um momento relacional e prático: as inquietações que nos levam ao desenvolvimento de uma pesquisa nascem no universo do cotidiano. O que atrai na produção do conhecimento é a existência do desconhecido, é o sentido da novidade e o confronto com o que nos é estranho. Essa produção, por sua vez, requer sucessivas aproximações em direção ao que se quer conhecer. E o pesquisador, ao se empenhar em gerar conhecimentos, não pode reduzir a pesquisa à denúncia, nem substituir os grupos estudados em suas tarefas político-sociais. Resultado da iniciativa, os alunos têm estado disponíveis para desenvolver novos projetos na Vila, aparentemente tendo superado o receio característico que os sujeitos da classe média nutrem pelas comunidades socialmente vulneráveis; os professores vêm propondo a integração de novos projetos, uma vez que a experiência mostrou-lhes que um mesmo objeto torna-se múltiplo sob distintos olhares, enriquecendo a atuação extensionista e também docente; a Vila Orfanatrófio tem traduzido seus anseios de melhoria de condições de vida também pela relação mais próxima com a Instituição. REFERÊNCIAS CAREGNATO, Célia Elizabete; HASSEN, Maria de Nazareth Agra; MAGGI, Noeli Reck. O saber que as crianças levam para a escola: traços culturais na sala de aula em escolas da Vila Cruzeiro do Sul/Porto Alegre. Porto Alegre: Faculdades Integradas do Instituto Ritter dos Reis, 2001 (Relatório parcial). ANEXOS Anexo A - Questionário (arquivo PDF) |